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Engana-se quem pensa que o estresse só ataca adultos. Pesquisas e consultórios lotados de crianças com a "doença dos tempos modernos" mostram que morar nas grandes cidades tem exigido um preço muito alto da meninada
Rosângela Rezende
Um dia, sem motivo aparente, Carlos Henrique Nascimento decidiu que não iria mais à escola. Aos 9 anos e cursando a terceira série, ele, que gostava de estudar e não era desobediente, simplesmente, permaneceu deitado, de braços cruzados, mudo e virado para a parede. Repetiu o gesto por dois meses, sempre no horário em que deveria estar no colégio. Contrariando os apelos dos pais e resistindo às sessões com o psicólogo, o menino só saiu da depressão em que se encontrava com medicamentos. Sua crise, mais tarde descoberta, nada mais era do que um dos 59 sintomas do estresse, um mal que atinge executivos, operários, adultos e, também, crianças.
O estresse é uma doença dos tempos modernos e das grandes cidades. Veio junto com o trânsito engarrafado, a poluição do meio ambiente, a violência urbana. É uma reação neuro-hormonal do organismo, quando, em situação de excesso e sobrecarga (do ponto de vista físico ou emocional), acaba por desencadear alterações de saúde (veja box) .
E, ao contrário do que boa parte das pessoas, inclusive os pais, acreditam, já chegou ao reino infantil. "Eu achava que estresse era frescura de madame", confessa a mãe de Carlos Henrique, a empresária Janete Nascimento. "Mas percebi com o meu filho que o nosso corpo e mente têm limites."
São esses limites que, muitas vezes, não resistem às mudanças de comportamento ocorridas nas últimas décadas, nas metrópoles, e fazem aumentar o número de crianças com o problema.
Segundo um estudo realizado pelo Instituto de Psicologia e pela Faculdade de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Paulista de Stress, Psicossomática e Psiconeuroimunologia (IPSPP), cerca de 80% das mais de mil crianças analisadas, entre 6 e 12 anos, apresentaram sintomas de estresse. Mesmo pertencendo a classes sociais diferentes e escolhidas, aleatoriamente, em escolas ou clubes onde desenvolviam atividades esportivas, elas tinham um item importante em comum: moravam na maior cidade da América Latina, São Paulo.
ADULTOS EM MINIATURA - É aí que está a grande diferença entre a infância dos nossos avós e dos nossos pais, e a das crianças modernas. E, p0or consequência, o porquê de tantos baixinhos enfrentarem o problema do estresse. Se a turma com mais de 30 anos vivia aos bandos se divertindo em ruas de terra, correndo para lá e para cá, subindo em árvores, os que têm menos de 20, moradores das cidades grandes, fatalmente, passaram boa parte do seu tempo enfurnados em apartamentos minúsculos, brincando somente com o computador, lotados de atividades e vigiados todo o tempo por temor de atropelamentos, roubos e sequestros.
"As crianças atuais não têm sido tratadas como crianças, são adultos em miniatura", condena o pediatra Michel Salzman. Segundo ele, o estresse demonstra o desvio na qualidade de vida, tão comum nos dias de hoje. E um dos grandes males da modernidade foi, sem dúvida, as alterações das formas naturais de brincar dos pequenos.
Para diminuir custos e agrupar famílias em cidades cada vez mais populosas, as casas e apartamentos foram impiedosamente reduzidos. Sem jardins e com as ruas ocupadas por carros, restou às crianças os seus quartos ou os diminutos playgrounds dos condomínios. Em vez do saudável esconde-esconde ou do jogo de queimada, fica-se com o videogame e os joguinhos de computador.
Na cabeça dos pais, pode-se concluir que, seja qual for a forma, o importante é que a meninada esteja brincando. Não é bem assim. "A máquina tem regras rígidas, inalteráveis, e mais possibilidade de ganhar", explica o professor do Instituto de Psicologia da USP, Esdras Vasconcellos, também diretor científico do IPSPP. "Jogar contra ela é desestimulante, pois se é sempre um candidato a perdedor." Além disso, a brincadeira exige concentração demasiada e é muito individualizada. A tensão acumulada não é extravasada ou dividida com os amigos.
Brincar na rua é diferente. Enquanto se disputa com os colegas quem é o melhor no pega-pega, fundamentos básicos da vida estão sendo aprendidos. Regras sociais e morais (como não burlar as normas do jogo e nem enganar os colegas), movimentos corporais e fatores emocionais (aprender a lidar com a vitória e com o fracasso) são treinados nesse grande campo de ensaio que é a brincadeira, principalmente, a realizada em grupo. Toda a tensão vai embora com muita corrida, gritos de emoção e xingamentos.
EGOS DESTRUÍDOS - A competitividade excessiva também é uma característica dos tempos modernos. E como tal, prejudicial ao bom desenvolvimento da criança, pois tira a espontaneidade do brincar e estudar. Mesmo nos clubes ou escolinhas esportivas, a competição e a conquista de resultados vêm sendo muito destacadas nas atividades. Há a preocupação com medalhas, com o lugar do pódio, e não com o aprendizado saudável de ser ganhador ou perdedor. "O mal não é competir, mas como se compete hoje", ressalta Vasconcellos.
Quando se disputa o vôlei com a turma, a competição informal é um estímulo para se jogar melhor. E, em caso de polêmica, pode-se negociar e discutir os resultados. Com a avaliação do desempenho na prática esportiva, como em qualquer outra, o excesso de cobrança provoca tensão e ansiedade demasiadas a quem ainda está aprendendo a lidar com os sentimentos.
No caso de Carlos Henrique, não foi o esporte que o estressou, mas a competitividade imposta pela escola. "A rigidez era absurda, os alunos tinham de ser os melhores sempre", conta a mãe. Para dar conta das exigências, o menino não tinha mais tempo para brincar com os amigos ou ir ao clube praticar atividades físicas.
O grande erro da família foi não ter percebido mais cedo os sinais de esgotamento, embora, perto das provas, ele sentisse falta de ar e taquicardia. "Trabalhamos como malucos e não percebemos o grito da criança", penitencia-se Janete. Hoje, com 12 anos, Carlos está bem e estudando em outra escola. "O ser humano precisa ser tratado com respeito, educar não é só um comércio", afirma a mãe.
Cabe aos pais, no entanto, boa parte da culpa por essas distorções. Preocupados em preparar o filho para o mercado profissional futuro, eles impõem um regime do quanto mais competitivo e mais cedo, melhor.
No consultório do doutor Vasconcellos não faltam casos onde a pressão familiar por resultados perturba a criança. Um paciente seu acabou roubando a medalha do primeiro lugar, após ganhar a de terceiro, em um campeonato de judô. "Ele justificou que o pai não aceitava derrotas", conta o psicólogo.
Outro garoto também sofria com as perdas. Nessas horas, seu pai sempre perguntava se ele tinha virado frouxo. "Esse tipo de comportamento destrói o ego das crianças."
AGENDAS LOTADAS - É também pensando em dar ao filho ferramentas extras para disputar com superioridade a luta pelo emprego que muitos pais lotam a agenda das crianças. Em muitos casos, porém, o inglês, a informática, a natação, o balé, o piano e o francês (ufa!) vêm somente como substituto para a presença dos pais em casa. Como lhes falta tempo de ficar com os pequenos por causa do excesso de trabalho, acabam por acreditar que tantas ocupações vão suprir sua ausência. Ledo engano.
Exagero nas atividades esportivas e intelectuais podem logo, logo sinalizar sinais de esgotamento e de estresse. "É preciso que os pais saibam que se as crianças não forem sadias, não serão adultos capazes de competir por coisa alguma", ensina o pediatra Salzman.
A analista de sistemas Ana Telma Tabarani Santos até sabia disso, mas adiantava tentar impedir que Felipe, seu filho de 14 anos, exagerasse nas atividades? "Eu dava bronca, pedia para não fazer tanta coisa, mas ele dizia que eu estava errada, que gostava e pronto", conta Ana.
E foi assim que, estudando num colégio puxado, fazendo natação, musculação, inglês, teatro, aula de guitarra, jiu-jítsu, tae kwon do e, de quebra, nos finais de semana, curso para monitorar as excursões da turma, Felipe não resistiu mais de dois meses. Teve dor muscular no joelho, devido ao excesso de atividades físicas, provavelmente, agravada por ele se locomover, sempre, de bicicleta, skate ou patins.
"Foi só quando teve a dor que ele aceitou ir ao médico", conta Ana Telma, há tempos, preocupada com o cansaço frequente do garoto, que mal se recostava no sofá já pegava no sono e que, muitas vezes, nem tinha forças para jantar. A repreensão do médico valeu.
Felipe conscientizou-se de que era um sinal de que seu organismo não ia aguentar muito tempo e poderia vir a ter um quadro de estresse brevemente. Ele largou boa parte das atividades - que, com a escola, chegavam a consumir 15 horas seguidas do seu dia - e entrou numa rotina onde não destina mais do que duas horas diárias às extra-curriculares. "Agora já sobra tempo para sair com os amigos, o que ele não fazia", conta a mãe.
RELÓGIO BIOLÓGICO - Um dos maiores sinais de que algo não vai bem vem primeiro da escola. Muitos casos de mau comportamento, notas baixas repentinas, por dificuldade de concentração, fixação e memorização são causados por estresse.
A psicopedagoga Nívia Basile, diretora da escola de reforço e aprofundamento Vesper - Estudo Orientado, está acostumada a receber crianças com inúmeros sintomas de estresse, mas encaminhadas como se tivessem apenas problemas escolares. "A maioria delas está estressada e uma minoria tem dificuldade real no colégio", informa Nívia.
Essa maioria, segundo a psicopedagoga, tem pais muito exigentes, que cobram desempenhos anormais para sua faixa etária. "As crianças se sentem amadas somente pelo seu desempenho e acabam ficando revoltadas", explica Nívia, ressaltando que, nesses casos, elas costumam tratar mal os irmãos menores, os empregados, os professores. Assim, estão reproduzindo o tratamento autoritário que seus pais têm para com ela.
É na escola, também, que se percebe o mal que faz o hábito de obrigar muitas crianças a estudarem pela manhã. A falta de sono pode provocar irritação e dificuldade em assimilar as matérias. Tudo por uma incompreensão familiar em relação ao relógio biológico dos filhos.
Existem crianças que se sentem tranquilas com poucas horas de sono. Outras, no entanto, precisam dormir mais. A dica para perceber como funciona o reloginho do seu filho é observar se ele acorda geralmente sozinho e se é bem-humorado ao despertar. Nesses casos, ir para o colégio logo cedo não lhe trará mal algum.
Acreditar na escola onde se colocou o filho - sem tentar completar a educação com mil cursos extras -, não ser um pai ou uma mãe exigente demais e atentar para o volume de atividades na agenda do pequeno (e, principalmente, se lhe sobra tempo para brincar) são fatores importantes para evitar o estresse da criança. Mas o principal continua sendo aquela velha lição passada de geração para geração: amar muito a criança e estar presente sempre que possível. Assim, não há estresse que resista.
OS NENÊS TAMBÉM SOFREM - A revelação de que todo bebê nasce estressado pode parecer exagero de uma época em que falar sobre o problema está na moda. Mas não é. Segundo a terapeuta comportamental Pessia Grywac Meyerhof, que, há 30 anos, se dedica ao tratamento de recém-nascidos de risco, o próprio ato de nascer e a separação imediata da mãe são fatores de tensão para o nenê. Afinal, todo o esforço feito na passagem pelo estreito canal do parto, unido ao abandono do espaço aconhegante do útero materno, estressa bastante os bêbes.
O fato de estrearem no mundo encarando essas situações, porém, não quer dizer que sofrerão males futuros. Faz parte da natureza humana sobrepujar as adversidades e seguir em frente. "O bebê normal sai da condição de estresse para a de conforto naturalmente", informa a doutora Pessia. O complicador surge quando ele enfrentou algum problema durante a gestação ou é portador de lesões genéticas.
Fetos que sofreram na barriga, seja por traumas maternos (morte de pessoas queridas ou situações de grande impacto emocional), ou por falta de espaço (no caso de gravidez múltipla, onde os nenês têm de dividir a alimentação e o útero), ou mesmo por falta de líquido placentário (o que dificulta a movimentação), são considerados bebês de risco, com uma enorme tendência a nascerem muito mais estressados que os outros.
COMPORTAMENTO DIFERENTE - Filhos de mães fumantes, usuárias de drogas ou alcóolatras, ou que tiveram algum tipo de doença durante o parto (como toxicoplasmose ou rubéola) ou mesmo estresse, também têm maior probabilidade de sofrer do mal. Para saber se o nenê, de fato, está com a doença deve-se observar a existência de sintomas, muito parecidos com o estresse da criança maior. Um sinal fácil de observar é o choro após o parto. Se ele demorar muito para chorar ou não fizer isso, há um problema a ser investigado.
Outros sinais são muita irritabilidade, choro constante, agitação extrema, dificuldade em sugar o leite (não consegue), se dorme demais ou muito pouco, tremores sem motivo, corpo muito mole ou excessivamente rígido e movimentos sempre repetitivos (sem variedade). "É possível notar que esse bebê tem um comportamento diferente e não está bem com ele mesmo", explica a doutora Pessia. Para que se desenvolva normalmente e não tenha problemas futuros de aprendizagem, de concentração, motores, respiratórios ou de fala, é importante observar esses sintomas e tratá-los.
O tratamento consiste em descobrir o que o bebê tem de normal e, a partir disso, ajudar a reorganizá-lo. O primeiro passo é saber do que ele gosta. Assim, por exemplo, uma criança que seja toda rígida, a ponto de ter o pescoço voltado para trás, deve ter seu objeto preferido posto, gradativamente, à sua frente, estimulando-a virar a cabeça e perceber essa outra ótica. "O importante é que ele próprio possa aprender a sobrepujar suas dificuldades, por meio de postura e movimentos adequados", explica a terapeuta. "Assim, ele preenche as lacunas do desenvolvimento normal e prossegue feliz em suas etapas."
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